Padre brasileiro é o representante do Papa na Amazônia

Justino Tukuya é o conselheiro responsável por explicar a espiritualidade dos povos indígenas em encontro de bispos

Justino dá réplica de canoa para o Papa: em viagem ao Peru, Francisco reforçou vontade de debater rumos da Igreja na Amazônia (foto: reprodução/internet)

No início de fevereiro, o padre amazonense Justino Tukuya visitou Taracuá, no interior no estado, para dar aulas sobre políticas educacionais indígenas. Três meses depois, fez outra apresentação, desta vez no Vaticano, com o Papa Francisco na plateia. Justino, de 57 anos, indígena de uma comunidade tukuya na fronteira do Brasil com a Colômbia, terá assento especial em um encontro de bispos que será realizado em Roma em outubro de 2019, cujo tema será os rumos da Igreja Católica na Amazônia.

Voltei do curso e fui para São Gabriel da Cachoeira, que fica a seis horas de barco. Lá recebi uma mensagem dizendo que deveria retornar para Manaus, onde fica meu santuário — lembra. — Soube, então, que um secretário da Rede Eclesial Pan-amazônica me convidou para participar do sínodo (o debate dos bispos). Hesitei um pouco, porque acho que encontros entre bispos e cardeais é algo muito distante da minha realidade. Mas eles precisavam de um representante dos povos indígenas, alguém que contasse um pouco sobre nosso pensamento.

Estudar um discurso que dê unidade às centenas de populações nativas da Amazônia é o maior desafio enfrentado por Justino, que se juntou à congregação salesiana em 1984. Dez anos depois, tornou-se sacerdote.

Justino testemunhou a ascensão e uma lenta decadência na presença dos salesianos na região. A ordem, que estava concentrada no território indígena no Alto do Rio Negro, no Norte do Amazonas, difundiu-se nos anos 1980 por diversas comunidades. Até o final do século, uma onda de sacerdotes abandonou a vida religiosa para, segundo Justino, “formar família”. Algumas localidades recebem visitas de padres apenas duas vezes por ano, abrindo espaço para a difusão de outras igrejas, especialmente as neopentecostais.

Em sua primeira década como salesiano, antes de tornar-se padre, Justino percebeu que a religião não deveria ser sua única bandeira. No curso de Teologia, que fez em São Carlos, no interior paulista, engajou-se em movimentos sociais, para contrariedade dos inspetores. Ao terminar os estudos, voltou para o estado natal. E lá entrou no Movimento Estudantil Indígena do Amazonas, que reivindicava a demarcação de terras e a integração escolar dessas populações.

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