Jander Vieira entrevista

(Foto: Luciana Machado)
(Foto: Luciana Machado)
(Foto: Luciana Machado)

O entrevistado de hoje é um amazonense do tipo original, genuíno, que dá orgulho. O Blog está falando de Rui Machado, o festejado artista-plástico-compositor, que tem suas obras espalhadas pelo mundo a fora. Rui costuma retratar o universo amazônico em suas pinturas, que agora ilustram calendários, sacolas plásticas ecológicas, campanha publicitárias e as paredes da ala puro poder daqui-dali-dacolá. Suas telas têm uma turma imensa de admiradores e fãs, o que aliás, só cresce a cada cria do artista. Quem conhece a casa-ateliê de Rui, no Centro Antigo, sai de lá em êxtase com a profusão de beleza, cores e traços únicos da grife RM. Então vamos às perguntas: 

A coleção de arte indígena de Rui Machado é uma das mais completas da região, usada como fonte de pesquisa por estudantes e estudiosos dos povos indígenas da Amazônia. O que lhe inspira nos povos indígenas? 

Obrigado pela deferência ao meu acervo de arte indígena, uma paixão, sem nenhuma pretensão de ser algo grandioso, apenas uma maneira de preservar um pouco da cultura que tanto me fascina.  O que me inspira nos povos indígenas?, primeiramente sua arte, bela, única e impregnada de identidade. Verdadeira fonte de admiração e inspiração. Depois a causa indígena como um todo. 

 

Qual sua relação com o território do Alto Rio Negro? 

Sou apaixonado pelo Rio Negro e por todas as cidades de sua calha, principalmente Barcelos, cidade dos meus antepassados, meu pai atravessou o oceano e lá se instalou, faz parte da minha história e de todo o meu imaginário criativo, além da importância dentro da história do Amazonas, foi a primeira capital.  Também possui o maior arquipélago fluvial do mundo chamado “Mariuá”, que aliás foi batizado por mim, quando fui presidente da comissão julgadora de um concurso para a escolha do nome do arquipélago, e é uma homenagem ao primeiro nome da cidade.

 

Na sua opinião, qual vai ser o futuro dos povos indígenas diante dos grandes empreendimentos que o país está construindo, como por exemplo as usinas hidrelétricas de Belo Monte e Teles Pires?

Infelizmente não vislumbro um final feliz para as populações indígenas do Brasil, principalmente com o governo que hoje temos, que não está preocupado com a causa, com nossa história, com o meio ambiente e com nossa cultura. Não há respeito por nada nem por ninguém, as hidrelétricas são apenas elefantes brancos no meio da floresta, instrumentos para enriquecimento de poucos com superfaturamento em suas construções, sem alcançar os reais objetivos. Veja Balbina, um grande desastre ecológico. 

 

Se fosse convidado a pintar os povos indígenas dos Estados Unidos que compraram e hoje exploram cassinos, aceitaria o convite? Por que? 

Eu já pintei a arte dos povos indígenas da América do Norte, numa exposição chamada “Herança”, em 2011, na Galeria Helena Gomes da Silva do ICBEU/Manaus, inclusive com o apoio da Embaixada Americana no Brasil.

Quais pintores lhe inspiraram? 

Gosto dos brasileiros Di Cavalcante, Portinari, Djanira, Tarcila do Amaral, do mexicano Diego Rivera e do francês Paul Gauguin. 

 

Quais os maiores entraves que a classe artística enfrente hoje, no Amazonas? 

Estar sempre esperando apoio, se fazer de coitadinho ou se achar o máximo…quem sabe faz a hora.     

 

Você sente que fora do estado suas obras são de alguma forma recepcionadas com mais curiosidade? 

Não estou muito preocupado com essa aceitação fora do estado ou do país, diz o ditado que “santo de casa não faz milagre”, mas eu adoro fazer milagre em casa. Também acho que essa busca desenfreada pelo sucesso, sem medir esforços e gastar muitos $$$, é para quem quer provar o que não tem. Muitos artistas já embarcaram em barcas furadas e falsas promessas, mas sem testemunhas chegam aqui contando um sucesso inexistente. Pior que enganar os outros é se enganar. 

 

Como é saber que suas peças enfeitam salas pelo Brasil a fora?

Só pinto o que gosto, não pinto só pra mim, e as pessoas só compram arte quando se identificam e admiram, só penduram na parede o que dá prazer… então me sinto feliz pelo que produzo. 


Cada tela que pintas, representa um pedaço de você ou apenas uma luz que se foi? 

Cada trabalho é uma parte sua, é como se fosse mais um filho que se coloca no mundo e para mundo. 

 

De onde vem suas inspirações para produzir? E a fonte dessa inspiração, continua tão latente quanto antes? 

Vem desse mundão verde que me cerca, do que já venho pintando ao longo da minha jornada, a Amazônia, sua fauna, flora, os povos que nela vivem e toda sua cultura. Esta é a minha inspiração, que continua forte, latente e apaixonante. 

 

És funcionário de carreira do Banco do Brasil; quando o Rui bancário deu lugar ao artista?

Trabalhei durante 34 anos no Banco do Brasil, sempre na área de comércio exterior. Estou aposentado há cinco anos, agora me dedicando totalmente as artes, porque ser artista é nascer artista, depois é só trabalhar e trabalhar.

 

Seu talento não limita-se a telas, pode citar mais alguns? Conheço o lado compositor… Quais mais lados de Rui há?

Além de pintar, já fiz talhas, esculturas e escrevo poesias. Como compositor, já fiz toadas para o boi Caprichoso, 1997, 1998 e 1999, e para o Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, além de várias outras composições com diversos parceiros, já que só faço letras. Lucilene Castro, Raízes Caboclas, Imbaúba, Carrapicho, Zezinho Corrêa, Mirtes Melo, Sidney Rezende e minha Diva Márcia Siqueira já gravaram meu trabalho, inclusive o CD “Nada a Declarar” (2009), de Márcia Siqueira, todas as composições são minhas, com outros parceiros. 

 

Tinta, óleo ou guache?

Acrílica, mas já experimentei todas as outras tintas.

 

Família, amigos ou simpatizantes?

Na sequência da pergunta, exatamente assim.

 

Como você vê o assédio relâmpago e a valorização excessiva dos amazonenses com a chegada vez e outra de certas figuras que surgem no meio artístico social da cidade?

 Infelizmente ainda vivemos e convivemos com uma mentalidade provinciana, onde o melhor é sempre o que vem de fora é o complexo do colonizado. Autoestima é a solução.

 

Onde “recarregas” as tuas energias? Aliás, quais teus points preferidos?

Gosto de coisas simples, roupas despojadas, estar em contato com a natureza e com os amigos. Não gosto de multidão, adoro comer peixe, frequentar o Bar do Armando, ver o pôr-do-sol, o rio Negro, o flutuante Peixe-Boi que é o meu paraíso e o Sarah’s Restaurante, da minha querida Sarah Cury, frequento somente lugares onde eu realmente me sinta à vontade. Mas gosto mesmo é de estar em minha casa, cuidando do meu jardim, curtindo meu acervo de arte indígena, alimentando meus passarinhos (todos livres), pintando, escrevendo, lendo, e curtindo minha família e meu cachorro Bento. Tive o privilégio de nascer em um lugar maravilhoso, que é a Amazônia, e não teria melhor lugar no mundo para viver, criar e defender. Eu não uso a região para me promover; eu amo e divulgo a Amazônia.

 

As administrações municipal – ManausCult – e estadual – por meio da SEC – têm “abraçado” a causa artística como você espera e merece?

Não espero nada de ninguém, apenas trabalho. O meu merecimento vem em função do que faço. 

 

Você tem a Amazônia estampada na face, demorou muito para imprimir essa identidade? Sofrestes muito e o que para hastear a bandeira da Amazônia?

Tudo no começo é difícil e complicado, não poderia ter sido diferente comigo, mas nunca dei importância. O pior inimigo do amazonense é o próprio amazonense, fui criticado por pintar a floresta e os povos que nela vivem. Hoje mudou um pouco pois o mundo quer conhecer a Amazônia, virou uma febre, e os que criticavam agora pintam o que costumavam exorcizar, apesar de que o preconceito existe, camuflado mas existe.

 

Já sofrestes preconceito por ser do Norte? Onde e qual tipo?

Tudo tem o valor que a gente dá, amo ser do norte.

 

A visão do artista plástico sobre Blog?

Como tudo que você faz, e o blog sendo uma continuação do seu trabalho, é mais uma opção de ter você por perto, tudo continua impecável, recheado de excelentes informações, num linguajar que lhe é peculiar, sem rodeios e direto. Sou seu fã Jander Vieira.

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