sexta-feira, 14 de agosto de 2026
TCE

Aumento do calor reforça necessidade de adaptar Manaus às mudanças climáticas

Temperaturas mais elevadas, queimadas, estiagens e eventos extremos ampliam desafios para a infraestrutura, a saúde e a qualidade de vida na capital amazonense

Gráfico: divulgação

O aumento das temperaturas em Manaus vem reforçando a necessidade de repensar a forma como a cidade é planejada. Estudos sobre o clima da capital apontam uma tendência de aquecimento ao longo das últimas décadas. Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Geofísica, baseada em cerca de 80 anos de dados meteorológicos identificou aumento de 0,27°C na temperatura média do ar, enquanto a temperatura média da superfície apresentou elevação de aproximadamente 3,17°C, associada principalmente às mudanças no uso do solo, à urbanização e à redução da cobertura vegetal.

O cenário se soma a períodos de seca, queimadas, fumaça, chuvas intensas e alagamentos, fenômenos que afetam diretamente a rotina da população e pressionam serviços públicos.

Para a arquiteta e urbanista Melissa Toledo, as mudanças climáticas precisam ser tratadas como uma questão urbana, territorial e social, e não apenas ambiental.

“Quando a gente fala de mudanças climáticas em Manaus, não fala só da questão ambiental. A gente fala do contexto urbano, territorial e social.”

Segundo ela, os eventos extremos já produzem impactos sobre mobilidade, infraestrutura, habitação, saúde e qualidade de vida.

“Isso nos coloca diante de uma pergunta fundamental: como o planejamento urbano precisa mudar diante dessa nova realidade climática?”

Arborização como infraestrutura

Melissa defende que o Plano Diretor de Manaus incorpore a variável climática ao zoneamento, à habitação, mobilidade, drenagem, saneamento, arborização, áreas verdes e localização de equipamentos públicos.

Para a urbanista, a cidade precisa ser mais permeável, sombreada e preparada para os eventos extremos.

“A árvore não pode mais ser vista apenas como paisagismo. Ela é infraestrutura climática: produz sombra, reduz temperaturas, melhora a qualidade do ar, contribui para a drenagem e o conforto urbano.”

A preservação de igarapés, áreas verdes, parques e espaços permeáveis também deve fazer parte dessa estratégia. “A água é infraestrutura na nossa região”, afirma.

A urbanista defende ainda uma mudança de paradigma no planejamento da capital, com a adoção de cenários futuros de calor extremo, secas, chuvas intensas e queimadas.

“A gente não pode mais pensar em planejamento urbano em Manaus olhando para o passado. Precisamos trabalhar com cenários futuros. Esse é o nosso novo normal.”

A Lei Federal nº 14.904/2024, que estabelece diretrizes para planos de adaptação à mudança do clima, reforça a integração entre gestão de riscos climáticos e políticas de desenvolvimento e ordenamento territorial.

Para Melissa, a discussão deve orientar a construção de um novo modelo de urbanismo para Manaus.

“A grande pergunta para o novo Plano Diretor não deve ser apenas como Manaus vai crescer, e sim que cidade precisamos construir para garantir o direito à cidade, a segurança da população e a proteção da vida diante das mudanças climáticas.”