
*Maria Vilani Maia Sequeira
A universidade brasileira vive um dos momentos mais decisivos de sua história. Em meio a transformações sociais, culturais e tecnológicas aceleradas, torna-se cada vez mais evidente que formar profissionais não é suficiente. O ensino superior precisa assumir, de forma inequívoca, seu papel como agente de justiça social. Falar de inclusão e diversidade, portanto, não é aderir a modismos, mas reconhecer umas responsabilidades que atravessam a própria essência da educação.
Defendo que a universidade só cumpre plenamente sua função quando reflete, em seus espaços, a pluralidade da sociedade que a sustenta. Isso significa ir além do discurso e transformar a diversidade em princípio estruturante. Instituições que valorizam a presença de diferentes identidades, trajetórias e vivências em seus quadros docentes e técnicos ampliam não apenas a representatividade, mas também a qualidade do processo formativo. O confronto de perspectivas, longe de ser um problema, é uma das maiores riquezas da experiência acadêmica.
A presença de professores negros, indígenas e de membros da comunidade LGBTQIAPN+ em sala de aula produz impactos concretos. Para muitos estudantes, enxergar-se no outro é o primeiro passo para acreditar que aquele espaço também lhes pertence. Esse sentimento de pertencimento fortalece o engajamento, reduz evasões e contribui para a construção de ambientes mais empáticos e colaborativos.
A inclusão, no entanto, não se resume ao acesso. Permitir que o estudante entre na universidade sem garantir condições reais de permanência é perpetuar desigualdades sob uma aparência de democratização. A Teoria do Reconhecimento, de Axel Honneth, nos lembra que justiça social depende da valorização das identidades e do respeito às diferenças. No ensino superior, isso se traduz em políticas que assegurem não apenas matrícula, mas também apoio acadêmico, psicológico e financeiro.
Nesse sentido, dialogo com Boaventura de Sousa Santos quando ele propõe a “ecologia de saberes”. A universidade se fortalece quando reconhece que o conhecimento científico não é o único válido e que diferentes experiências, culturas e formas de saber enriquecem o processo educativo. Quando a instituição se fecha em si mesma se distancia da realidade; a universidade que escuta a sociedade, se reinventa.
O cenário pós-pandemia escancarou fragilidades, mas também abriu oportunidades. Modelos engessados de ensino foram questionados, e novas formas de relação entre professores e estudantes passaram a ser exigidas. Relações mais humanizadas, baseadas na escuta, no diálogo e no respeito, deixaram de ser desejáveis para se tornarem indispensáveis.
Por isso, afirmo: inclusão e diversidade não são pautas acessórias, mas fundamentos da qualidade acadêmica, da inovação e da formação cidadã. A universidade que não enfrenta esse debate está condenada à irrelevância social. Ir além dos muros significa compreender que a educação superior não existe para poucos, mas para todos — e que somente na diferença é possível construir um futuro verdadeiramente democrático.
*Maria Vilani Maia Sequeira, psicóloga, doutoranda em Psicologia (UFAM). Professora e coordenadora do Curso de Psicologia do Centro Universitário Martha Falcão Wyden.









