segunda-feira, 1 de junho de 2026
TCE

Obesidade infantil avança no país e exige atenção precoce, alerta especialista

Exames laboratoriais e acompanhamento multidisciplinar ajudam a identificar riscos antes do agravamento da condição e de doenças crônicas associadas

Foto: Magnific

Um terço das crianças e adolescentes brasileiros entre 0 e 19 anos vive com excesso de peso. O dado é do  Panorama da Obesidade em Crianças e Adolescentes e representa um avanço expressivo em relação a 2015, quando esse índice era de 29,6%. Diante do cenário, o Dia da Conscientização Contra a Obesidade Infantil, celebrado em 3 de junho, reforça a importância de hábitos saudáveis e do acompanhamento precoce para evitar complicações que podem acompanhar a criança por toda a vida.

O alerta também aparece no  Atlas Mundial da Obesidade 2026, publicado pela Federação Mundial de Obesidade. Segundo o levantamento, mais de 180 países registraram aumento nos índices de sobrepeso e obesidade entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos desde 2010. A projeção é de que ao menos 120 milhões de jovens apresentem sinais precoces de doenças crônicas até 2040.

A endocrinologista e consultora médica do Sabin Diagnóstico e Saúde, Isabella Oliveira, explica que a identificação do risco começa ainda nas consultas de rotina, por meio da avaliação do IMC (índice de massa corporal), calculado a partir da relação entre peso e altura.

“Para crianças e adolescentes, utilizamos gráficos de IMC por idade e sexo, que permitem comparar o crescimento de cada paciente com parâmetros adequados para a faixa etária”, afirma. 

Avaliação precoce

Segundo a especialista, exames laboratoriais podem ser indicados mesmo antes de a obesidade se instalar. A proposta é ampliar a avaliação clínica e permitir intervenções mais rápidas para evitar a progressão do quadro.

Pacientes com sobrepeso, por exemplo, podem receber indicação para realizar perfil lipídico (exame que mede colesterol e triglicerídeos), glicemia de jejum (que avalia os níveis de açúcar no sangue), e transaminases, utilizadas para analisar o funcionamento do fígado.

“O mesmo vale para quem apresenta sinais clínicos de resistência insulínica, acantose nigricans [escurecimento e espessamento da pele em dobras como pescoço e axilas], aumento da circunferência abdominal, alteração na relação entre cintura e altura e presença de acrocórdons cervicais [nodulações ou caroços no pescoço]”, explica a especialista.

A endocrinologista destaca que a obesidade infantil é uma condição multifatorial. Na maior parte dos casos, fatores ambientais, como alimentação rica em ultraprocessados, excesso de açúcar, sedentarismo e tempo excessivo em telas, ativam uma predisposição genética ao ganho de peso.

No entanto, algumas doenças endocrinológicas também podem estar relacionadas ao quadro.

“Hipotireoidismo, síndrome de Cushing e síndromes genéticas são condições que precisam ser investigadas quando há suspeita clínica”, ressalta a médica.

Impactos duradouros

Considerada uma doença crônica, a obesidade infantil pode afetar diferentes sistemas do organismo ainda na infância. Entre as complicações mais frequentes estão diabetes tipo 2, hipertensão arterial, alterações no colesterol e maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer ao longo da vida.

Além das consequências físicas, o excesso de peso também pode comprometer o bem-estar emocional e social da criança, dificultando a prática de atividades físicas e aumentando a exposição ao bullying e ao isolamento social.

“O impacto psicológico é significativo. Muitas crianças desenvolvem insegurança, baixa autoestima e dificuldades de socialização. Por isso, o cuidado precisa envolver não apenas o corpo, mas também a saúde emocional”, afirma Isabella.

De acordo com a especialista, o tratamento deve ocorrer de forma interdisciplinar, com participação de endocrinologista, pediatra, nutricionista, psicólogo e educador físico. O envolvimento da família também é decisivo para a mudança de hábitos e para a adesão ao tratamento.

“Existem medicamentos aprovados para crianças a partir dos 10 anos e outras opções liberadas após os 12 anos. Mas o tratamento medicamentoso funciona como suporte e não substitui a adoção de hábitos saudáveis e mudanças no estilo de vida”, reforça a endocrinologista.