terça-feira, 31 de março de 2026
TCE

Quando o coração volta a arder

Foto: arquivo pessoal/Canção Nova

* Padre Antônio Xavier

Poucos textos bíblicos traduzem tão bem a experiência humana quanto o relato dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Ali se narra a tristeza de dois discípulos, até então desconhecidos, que partem de Jerusalém com seus corações abatidos após a paixão e morte de Jesus. No caminho, Jesus se aproxima deles e explica-lhes a realidade, fazendo seus corações arderem com suas palavras. Por fim, aceita entrar na casa deles para que o reconhecessem ao partir o pão.

Não se pode julgar esses discípulos, porque todos nós, em algum momento da vida, já tivemos de lidar com expectativas não correspondidas que nos levam a pensar se vale a pena seguir adiante, se já não chegou ao fim aquela estrada, especialmente, quando nos sentimos incapazes de enfrentar a realidade. O pensamento de retornar a Emaús é fruto da busca de refúgio, de silêncio, do cansaço ou mesmo do ceticismo, quando o sol das nossas esperanças parece ter se posto definitivamente. A tristeza, a desilusão e a decepção geravam naqueles homens um rosto abatido. Eram pessoas boas, mas transpassadas pelo peso da realidade e por sentimentos que os impediam de enxergar além da dor. Eles não são “incrédulos”, são apenas pessoas cansadas pelas exigências da vida que lhes exigem mais do que podiam dar naquele momento. Mas aqui está um dos detalhes mais bonitos da Páscoa que, às vezes, deixamos passar: Jesus já estava lá também.

Antes de qualquer oração bonita ou reconhecimento teológico, Jesus se aproxima. Ele não espera que os discípulos recuperem a fé para aparecer. Ele entra na conversa enquanto eles ainda estão reclamando, duvidando e sofrendo. É bonito perceber que eles não sabiam, mas Jesus caminhava com eles. Muitas vezes, achamos que Deus só está conosco quando tudo brilha, quando tudo funciona. Mas a verdade das Escrituras é mais concreta: Jesus é o companheiro de estrada que caminha conosco. Ele ouve o nosso desabafo, respeita o nosso passo lento e não nos atropela com respostas prontas. Ele está ali, incógnito, dividindo a poeira do caminho.

No meio daquela conversa desanimada, o “Estrangeiro” começou a falar. Escutava-os, orientava-os e conduzia seus corações. Assim, a viagem ficou mais leve e o caminho que os levaria à desistência, tornou-se um caminho de ressurreição. Ele foi ligando os pontos para demonstrar que aquilo que parecia um fim de linha era, na verdade, parte de um plano muito maior.

O interessante na pedagogia de Jesus é que Ele não interrompe a tristeza deles com um prodígio retumbante. Ele se aproxima como um estrangeiro, isto é, faz-se distante para tornar-se próximo. Jesus respeita o passo lento de quem está ferido. Ele não exige alegria imediata, ao contrário, pede apenas o relato da dor: “O que vocês vêm conversando pelo caminho?” Assim como no relato da criação, em Gênesis 1 ou no belo texto de Ezequiel 37,1-14, suas palavras foram organizando o caos que havia naqueles corações, revitalizando os ossos ressequidos pelos desafios e pelas dores da vida, aquecendo o coração daqueles discípulos e lhes dando novo ânimo. Mostrando que nada havia saído do controle de Deus.

A passagem continua lembrando que Jesus fez menção de ir adiante. Ele é educado e não invade a nossa vida; espera o nosso convite. Quando aqueles homens dizem: “Fica conosco, pois a noite cai”, eles estão abrindo a porta para que a presença, que já era real, se tornasse visível. Aquele que eles julgavam estar morto era o único que estava realmente vivo, sustentando os passos deles durante todo o trajeto.

A grande mensagem da Páscoa para nós é que o Ressuscitado não é alguém que está apenas no final da linha. Ele é quem nos trouxe até aqui. Mesmo quando não percebemos sua presença, Ele sempre esteve nos acontecimentos da nossa vida. Dor, tristeza e coração frio não são barreiras para sua presença. É justamente isto que parece atraí-lo para perto de nós. Ele está sempre soprando as brasas em nossa alma.

A Páscoa não é apenas sobre um túmulo vazio em um lugar distante. É a certeza de que não existe estrada solitária para quem se deixa encontrar por esse “Estrangeiro” que, no fundo, já é o dono da nossa casa. Celebrar a Páscoa é ter a coragem de refazer o caminho. É transformar a desolação em missão. Não somos chamados a viver em Emaús, mas a retornar para a Jerusalém das nossas cidades, das nossas famílias, dos nossos compromissos e dos nossos desafios, às vezes, lugares onde morte e dor ainda nos assustam, anunciando que a Vida venceu. Cristo não nos livra das estradas longas, mas garante que nenhuma delas será percorrida na solidão.

Que nesta Páscoa o nosso coração também volte a arder ao ouvir sua voz e que, olhando para nossa própria história, consigamos perceber que Ele sempre esteve no meio de nós.

*Padre Antônio Xavier é missionário da comunidade Canção Nova.