terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
TCE

Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Foto: Bruno Marques/Canção Nova

Pe. Leonardo Ribeiro

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal.

A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, já nos propõe este movimento interior em assumir que verdadeiramente se trata de um kairós, um tempo de graça. São Paulo, na Segunda Leitura, nos declara: “Porque ele (o Senhor) diz: Eu te ouvi no tempo aceitável, e te ajudei no dia da salvação. Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação” (2 Cor 6, 2).

Portanto, o tempo da graça é hoje, é agora, e não podemos desperdiçar, pois não sabemos se teremos mais tempo para nos convertermos. Nesse sentido, é preciso decisão. De nossa parte, é preciso querer adentrar à Quaresma, que não se trata somente de um período de quarenta dias. Trata-se de entrar no deserto. Quaresma é tempo de escuta, verdade, confronto, que somente estando no deserto vamos conseguir viver.

Nesse sentido, voltamos o olhar para o modo que cada um de nós tem vivido. Infelizmente, a sociedade está imersa no ritmo acelerado, no barulho e rumores, com a tecnologia cada vez mais envolvente, que nos tem impedido de parar. Por isso, vamos nos “inchando”, sempre e sempre mais com realidades para dar conta, e o dia vai passando, abreviando o tempo, e quando vemos, parece que não conseguimos fazer tudo o que deveríamos.

Por este motivo, o tempo Quaresmal nos impele a parar. Entrar no deserto requer tempo, silêncio, disposição de escuta, porque no deserto não há compatibilidade com o ritmo frenético que estamos inseridos, muito menos com o barulho e tantas vozes que tentam nos confundir e nos acelerar.

O Cardeal Robert Sarah, ao falar sobre o tempo favorável de conversão que é a Quaresma, declara: “Conversão significa afastar-se de todas as coisas fúteis e tóxicas que nos mantêm cativos e voltar-se para Deus. Mas do que precisamos nos afastar e onde Deus está esperando por nós?”

Quando escolhemos nos desligar daquilo que estamos acostumados e conformados, ou seja, quando escolhemos verdadeiramente entrar no deserto, as máscaras caem. No deserto nos confrontamos com nós mesmos. No deserto não há espaço para as vozes externas que a todo tempo nos confundem e distraem. Por esse motivo, é muito difícil adentrar o deserto, porque temos medo do confronto. É neste deserto quaresmal que conseguimos nos libertar das coisas fúteis e tóxicas, como o Cardeal bem destacou.

Podemos tocar na beleza de estar no deserto, quando temos a possibilidade de encontrar com a nossa verdade, como estamos vivendo, sem as ilusões que a tecnologia, as redes sociais, e tantas outras realidades externas nos envolvem e iludem. Além disso, o deserto proporciona o encontro com Deus. Sem silêncio não há possibilidade de escuta, e no mundo em que estamos, cada vez mais falta disposição para escutar. Da escuta somos provocados a mudar de vida. Quando escutamos a nós mesmos e a Deus, todo o barulho é sanado. Somos libertos da corrente que antes nos aprisionava.

O Papa Leão nos fala da necessidade do silêncio neste tempo, porque se não há escuta, vamos nos perdendo nas palavras e até mesmo ferindo os que estão ao nosso redor: “O Papa recomenda o jejum das palavras que podem se tornar armas que ferem e machucam. Uma linguagem desarmada que, sempre na Mensagem da Quaresma, Leão XIV definiu co mo uma forma de abstinência muito concreta e muitas vezes pouco apreciada: (…) Iniciamos a Quaresma, tempo de graça e de conversão. Peçamos ao Senhor que prepare nossos corações para ouvir e colocar em prática a sua Palavra, jejuando de gestos e comentários que ferem os outros e nos afastam do seu Coração misericordioso.”

Concluindo, o Tempo Quaresmal é um tempo fecundo de reflexão e mudança de vida. O risco que corremos é cair no erro de considerar a Quaresma como “mais um tempo”, “tudo de novo”, e viver de qualquer modo. Trata-se de uma escolha livre e consciente, sabendo que nós somos os doentes, os enfermos, por muitas vezes envenenados pelo ritmo, correria, excesso de tecnologia e redes sociais. Entrar no deserto é uma escolha. Portanto, não tenhamos medo de mergulhar no silêncio, na escuta, no confronto, porque Deus nos espera e tem o melhor para nós.

Que Deus abençoe você! Santa Quaresma!

*Padre Leonardo Ribeiro é membro da Comunidade Canção Nova