
A Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM) apresentou a Zona Franca de Manaus (ZFM) nesta quinta-feira (13) como uma plataforma estratégica para novos investimentos no Amazonas, mas também como um modelo que precisa avançar em competitividade, inovação, diversificação econômica e infraestrutura logística. A exposição foi dedicada a empresários, investidores e representantes do setor produtivo que estão em Manaus para conhecer o modelo ZFM.
Na abertura do encontro, o presidente da FIEAM, Antonio Silva, reforçou o papel dos incentivos fiscais como instrumento de atração de empresas para o Polo Industrial de Manaus (PIM). Segundo ele, entre os principais mecanismos estão os benefícios estaduais relacionados ao ICMS e os incentivos federais administrados no âmbito da Suframa. “O grande atrativo mesmo é o imposto ICMS, é o do governo do Estado do Amazonas”, afirmou o presidente ao explicar aos empresários as condições oferecidas pelo modelo para a instalação de novos empreendimentos.
Silva também defendeu a importância de apresentar aos potenciais investidores as características e oportunidades existentes no Amazonas. E ainda reforçou a disposição do setor industrial de disputar novos empreendimentos. “Nós não vamos perder nenhuma implantação de nenhuma fábrica que queira se instalar aqui no nosso Polo Industrial de Manaus”, afirmou.
Durante o encontro, foram distribuídos materiais com informações sobre o modelo e suas demandas, em uma iniciativa voltada a aproximar empresários de outras regiões do país das possibilidades de negócios no Estado.
Um modelo que busca se reinventar
O secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), Gustavo Igrejas fez um panorama histórico da ZFM e realçou as transformações pelas quais o modelo passou desde sua criação. Com quase quatro décadas de acompanhamento do PIM, Igrejas afirmou que a discussão sobre a ZFM precisa superar antigos estigmas e considerar o grau de agregação de valor alcançado pela indústria instalada em Manaus. “Eu queria passar um pouquinho para vocês a história da Zona Franca de Manaus antes de chegar nos incentivos, mostrar como nós chegamos aqui hoje e até tirar, desmistificar com vocês alguns mitos ruins”, disse.
Entre as características atuais da Zona Franca, o secretário citou a produção verticalizada, a formação de mão de obra especializada, o surgimento de clusters industriais, a contribuição para o desenvolvimento urbano e a preservação da floresta. A apresentação também destaca a existência de dependência tecnológica e do mercado interno como desafios ainda presentes.
Os números apresentados reforçam a dimensão econômica do modelo. Segundo os dados utilizados por Igrejas, o PIM registrou faturamento de US$ 19,3 bilhões entre janeiro e maio de 2026, enquanto a média anual de mão de obra alcançou 132.075 trabalhadores em 2025. A série de investimentos também aponta mais de US$ 10,9 bilhões em 2026.
O secretário ressaltou ainda que a indústria amazonense tem registrado crescimento expressivo. Na avaliação apresentada durante o painel, o número atual de trabalhadores é particularmente relevante diante do avanço da automação industrial. “Esse número que nós temos hoje, 132 mil pessoas, é extremamente relevante, dado ao grau de automação que existe nas empresas”, afirmou.
Para Igrejas, entretanto, o próximo ciclo da Zona Franca deve combinar a manutenção da indústria existente com uma estratégia de diversificação econômica. A apresentação aponta como caminhos as potencialidades regionais, a agroindústria, a logística e o desenvolvimento de novos produtos.
A meta, segundo o secretário, é fazer com que o Polo Industrial evolua para uma estrutura ainda mais integrada à pesquisa, à tecnologia e à biodiversidade amazônica. “O ideal seria que um dia, ainda que distante, conseguíssemos que o PIM fosse uma forte base industrial mundial, com desenvolvimento de produtos locais e com uma infraestrutura que permitisse que o mesmo se tornasse um centro exportador de produtos e tecnologias”, afirmou Igrejas.
Menor dependência dos incentivos
Gustavo ainda defendeu uma visão de longo prazo para o modelo. Segundo ele, a ZFM precisa aproveitar o período de vigência constitucional para avançar na geração de atividades econômicas capazes de reduzir gradualmente a dependência dos incentivos fiscais. “A Zona Franca está garantida até 2073 e eu gostaria muito que até lá a gente tivesse cada vez menos dependência dos incentivos fiscais. E o nosso diferencial é a utilização da biodiversidade mais rica do planeta”, declarou.
Nesse contexto, a biodiversidade e o conhecimento científico aparecem como elementos capazes de conectar a economia regional à indústria instalada no Distrito Industrial. A proposta discutida no painel é ampliar a utilização econômica de recursos amazônicos, com pesquisa e desenvolvimento capazes de gerar produtos e insumos para a própria indústria.
Logística é o principal gargalo
Se os incentivos fiscais e a capacidade industrial aparecem como diferenciais, a logística continua sendo um dos principais desafios para o Amazonas. É o que afirma o diretor adjunto da FIEAM e chefe de Projetos Especiais da empresa Bertolini, Fábio Gobeth, ao abordar a operação da Bertolini e os obstáculos enfrentados pelo transporte de cargas na região.
Gobeth destacou a especialização da empresa na logística amazônica. Com 48 anos de atuação, a Bertolini mantém operações rodoviárias e fluviais, além de estaleiro, manutenção naval, armazenagem, transporte de grãos, construção de balsas e empurradores e fabricação de implementos rodoviários. “A Bertolini é uma empresa que tem 48 anos e ela trabalha com cargas para a Amazônia. Embora tenha filiais no Brasil inteiro, muito raramente vamos fazer uma carga para Curitiba ou Brasília. Todas as cargas, praticamente, têm origem ou destino na Amazônia. A gente é especialista em Amazônia, na região Norte”, afirmou Gobeth.
De acordo com Gobeth, a logística da região exige uma combinação de modais. Entre os principais produtos transportados para Manaus estão alimentos, materiais de construção, itens de varejo, vestuário e medicamentos. No sentido contrário, grande parte da carga é formada pelos produtos fabricados no Polo Industrial, incluindo itens do setor de duas rodas, eletroeletrônicos, linha branca e produtos químicos.
BR-319 poderia reduzir tempo de transporte
Um dos pontos centrais levantados por Gobeth foi a necessidade de ampliar as alternativas terrestres de ligação do Amazonas com o restante do país. Segundo ele, a utilização de uma rota pela BR-319 poderia reduzir significativamente o tempo de transporte entre Manaus e os grandes centros consumidores. “A gente reduziria para oito dias de trânsito e eliminaria a necessidade de pôr carretas em cima de balsas”, afirmou, ao discutir as possibilidades logísticas associadas à rodovia.
O executivo também chamou atenção para a necessidade de adaptação da infraestrutura à nova realidade climática da Amazônia. Para ele, a repetição de eventos extremos nos rios tornou a previsibilidade das condições de navegação um fator estratégico para a indústria. “Existe uma nova realidade nos rios da Amazônia. A gente teve, nos últimos 15 anos, as três maiores secas da história registrada e quatro maiores cheias da história”, afirmou Gobeth.
A apresentação da Bertolini aponta ainda que a BR-319 tem uma área de influência que alcança mais de três milhões de pessoas. Para Gobeth, a melhoria das condições da rodovia teria efeitos não apenas sobre o transporte de cargas, mas também sobre a economia e a qualidade de vida dos municípios localizados ao longo do trajeto. “Essa estrada ia fazer uma diferença brutal para o comércio e para a indústria, atividade privada, tudo como um todo”, resumiu.
Infraestrutura e competitividade
Gobeth defendeu investimentos públicos em pontos considerados estratégicos, especialmente dragagem e infraestrutura rodoviária. Ao mesmo tempo, destacou que o setor privado vem criando alternativas para enfrentar as limitações existentes. “A gente tem situações que não dependem da iniciativa privada, que a gente precisa de fato de investimento, que é o caso da dragagem da BR-319, mas que a gente se vira sem elas há muito tempo e a gente arruma soluções para a logística da Amazônia”, disse.
As apresentações também apontaram alternativas internacionais para ampliar a integração logística do Amazonas, incluindo conexões com portos do Peru, Equador e Guiana, além de rotas para o Pacífico e possibilidades de integração rodoviária e hidroviária.
Ao final do painel, ficou evidenciado que a agenda de novos investimentos no Amazonas passa por uma combinação de fatores: segurança jurídica dos incentivos, capacidade industrial instalada, formação de mão de obra, inovação, diversificação da economia e melhoria da infraestrutura.
Na reunião, os empresários convidados ouviram que a ZFM não deve ser vista apenas como um regime de incentivos, mas como uma plataforma industrial que pode ampliar sua participação em cadeias produtivas nacionais e internacionais. Para isso, será necessário enfrentar os gargalos logísticos e transformar as vantagens regionais, especialmente a biodiversidade, em novos produtos, tecnologias e oportunidades de negócios.
No encontro, a perspectiva defendida pelos participantes foi de que atrair investimentos é apenas parte do desafio: o próximo passo é criar condições para que esses investimentos sejam competitivos, inovadores e cada vez mais integrados à economia amazônica.









