
Por Aline Vitorino Nunes
Ansiedade, depressão, burnout e crises de pânico tornaram-se parte do vocabulário cotidiano dos brasileiros. Esses termos ecoam nas redes sociais, nas universidades, nos ambientes de trabalho e até nas conversas mais íntimas. A saúde mental entrou em evidência — mas a ampliação do discurso não veio acompanhada de políticas públicas eficazes, acesso real ao cuidado ou transformações estruturais capazes de conter o adoecimento. A crise que vivemos ultrapassa o campo clínico: ela é social, econômica e política.
O Brasil ocupa o topo do ranking global de ansiedade e figura entre os países com maiores índices de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde. Esses números não surgem por acaso. Eles refletem um país marcado por desemprego persistente, informalidade crescente, violência, instabilidade política, racismo estrutural, aumento da pobreza e sucessivos desmontes de políticas sociais. A pandemia de Covid-19 apenas intensificou as feridas já abertas e ampliou desigualdades históricas.
Enquanto a sociedade repete a máxima “procure ajuda”, a realidade mostra que essa ajuda não está disponível para todos. O Sistema Único de Saúde, apesar de sua relevância e capilaridade, enfrenta sucateamento, falta de profissionais, sobrecarga de demandas e, em muitos lugares, a inexistência de Centros de Atenção Psicossocial. Vivemos, assim, uma contradição cruel: o sofrimento cresce, mas o cuidado não acompanha.
Nos ambientes de trabalho, o cenário também preocupa. Apesar de o burnout ter sido oficialmente reconhecido como fenômeno ocupacional, as condições laborais permanecem adoecidas. Exigências desumanas, assédio moral, metas inalcançáveis, salários defasados e o medo constante do desemprego formam um terreno fértil para o esgotamento. O cansaço vira culpa individual, quando deveria ser entendido como consequência de um modelo produtivo que corrói a saúde física e emocional dos trabalhadores.
Entre os jovens, o quadro não é diferente. Pressão por desempenho, dificuldades de acesso ao ensino superior, precarização das oportunidades e a exposição incessante às redes sociais alimentam ansiedade, insuficiência e desesperança. A promessa de mobilidade social convive com a ausência de perspectivas concretas — e a conta emocional dessa dissonância tem sido paga com sofrimento intenso, automutilação, uso abusivo de substâncias e aumento de comportamentos suicidas.
Nas redes sociais, proliferam imagens de felicidade contínua e vidas aparentemente perfeitas. O Brasil real, marcado por desigualdades profundas, assiste diariamente à apresentação de um país que não existe. A comparação permanente gera sentimentos de fracasso e inadequação, especialmente entre jovens negros, periféricos e vulnerabilizados, que enfrentam mais barreiras e têm menos acesso ao cuidado.
O aumento dos diagnósticos de transtornos mentais também demanda interpretação cuidadosa. Se, por um lado, indica maior reconhecimento do sofrimento, por outro evidencia a medicalização crescente da vida — muitas vezes usada como resposta imediata para problemas que têm origem social. Medicamentos são importantes, mas não substituem políticas públicas, vínculos comunitários, trabalho digno, moradia adequada, segurança e acesso à cultura.
É preciso considerar, ainda, que a saúde mental no Brasil é atravessada por marcadores de raça, gênero e território. Populações negras, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e moradores das periferias figuram entre os grupos que mais sofrem e que menos conseguem acesso contínuo ao cuidado. A geografia das desigualdades brasileiras também define quem sofre e quem recebe tratamento.
A verdade é dura, mas necessária: não há saúde mental possível em meio à fome, insegurança, desemprego, racismo e violência cotidiana. Continuaremos aprofundando essa crise enquanto tratarmos o sofrimento como responsabilidade exclusivamente individual, ignorando as condições concretas que o produzem.
Cuidar da saúde mental exige mais do que campanhas motivacionais ou discursos sobre autocuidado. Exige investimento público, fortalecimento do SUS, ampliação da Rede de Atenção Psicossocial, valorização dos profissionais e políticas que enfrentam as condições que adoecem milhões de brasileiros. Falar de saúde mental é, acima de tudo, discutir qual projeto de sociedade queremos construir.
Aline Vitorino Nunes, psicóloga, mestre em Psicologia, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, especialista em Saúde Pública, professora de Psicologia na Wyden.









